Para Julio Cortázar.

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O vento ondula na cortina e balança a saia da moça. No salão branco de janelas imensas ela dança rodando a saia longa num movimento que conquista todo o espaço, submete cada metro quadrado e flui num farfalhar de cores gastas, de alegria em sombra de quintal, de nascer do dia antes do sumiço das estrelas.

Não é uma moça miúda, tampouco lhe falta proporção. Age com a força de mãos em prece e seus olhos cintilam no frequente encontro com a luz.

É claro que tal movimentação não passa desapercebida e em instantes a sala se enche de curiosos, malucos, designers, agiotas, excêntricos, burocráticos, executivos, visionários, vagabundos, funcionários, românticos, estudantes de agronomia, cantores decadentes, técnicos em edificações, quituteiros, filósofos, cronópios — esses em grande quantidade — e um ou outro garçom (que, afinal, essa multidão aprecia algum conforto e preza pela arte de receber).

Quem organiza esse simpático caos está sempre misturado às mãos que gesticulam, às bocas que, rindo, se escondem para não expor a inconveniente mastigação, aos olhos que, volta e meia, miram a moça linda que agora andafalamastigadançanovamente ou apenas escuta atenta – pés paralelos – coluna reta.

O anfitrião desta reunião espontânea se alegra enquanto distribui pequenos presentes que os convidados aceitam sem corar.

A festa continua porque há vontade de estar ao lado das altas janelas do salão vendo a brisa soprar a longuíssima saia que se movimenta livremente entre as improváveis companhias. Evidentemente crianças agitadas roubam brigadeiros de um parabéns que todos esqueceram de cantar, advogados e sonhadores dançam catala com velhinhos pouco atentos, e mestres de obras com seus sapatos sujos de gesso envolvem mulheres tristes em abraços meninos enquanto há luz no céu azul que se reflete no chão polido.

Quando a primeira estrela vier furar o horizonte, todos docemente sonolentos e estúpidos vão para suas casas, um de cada vez ou aos pares, às vezes amigos em grupo celebrando a rua. As cores pálidas da saia se espalharão pelo céu fresco enquanto o anfitrião cerrará as cortinas num gesto largo que há de terminar com uma merecida dança a dois, numa calma de quem aquece as mãos na lareira.

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Agora alguns se enroscam em suas corpulentas mulheres

enrolando ondas de cabelo recém-lavado

retendo nas mãos as formas cansadas de maxilares endurecidos

Amam — da maneira que só os homens sabem amar —

suas agradecidas damas de decote discreto

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Tem quem cante na rua

embriagado pela noite que certamente é infinita

Outros rezam olhando o céu,

olhando a mãe,

ou pensando em escovar os dentes.

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Hoje todos se deitam crianças e dormem contentes com as mãos no coração.

Os meus pés são os seus. E toda vez que olho meu dedão me lembro também que meu olho é o seu, que minha calma vem de você, que minha boca só pode dizer tuas palavras. Meus pés que também possuis repetem os mesmo passos pelo concreto de todos os dias, e é difícil me achar dentro do que metade é teu.

Meu cabelo ondula seguindo a sua mente tortuosa, minhas mãos sempre seguraram o lápis com a mesma busca pela linha, minha urgência por aventura hesitando em seguir a coragem que já estava em ti. Procuro por você em mim, e é difícil te encontrar no meio do que metade é ele.

Esse corpo que é todo marcado pelo que já foi. Esse nariz que veio de algum cerrado distante, essas costas que provavelmente viajaram por turbulentas águas atlânticas, os seios que já repousaram nos braços carinhosas de montanhas suaves em quaisquer minas gerais. Meus olhos que viram o mundo desfilar pelas retinas de um passado contínuo, passado que carrego nas mãos ainda pouco queimadas pelo Sol. E meu coração inteiro ainda vive na casa de portas-jamais-trancadas, nas janelas sempre escancaras, na sala tão iluminada. Meu coração ainda canta a canção de um lar que se abre em varandas, minha voz ainda solfeja a melodia de um amor que se insinua pelo sangue.

A pele atravessa o frio do outono uma vigésima segunda vez, me lembra de achar nos pedaços que trago comigo aquilo que é um.
Olho no espelho minha pupila contraindo e relaxando e busco na profundidade da escuridão um canto de mim que não se despedaça.
Reencontro da alma.

E eu escrevo e escrevo e escrevo e não consigo colocar pra fora toda essa coisa que você sempre deixa em mim, essa impressão de sentimento forte que sempre começa a me apertar sempre chega um momento em que eu transbordo e vez ou outra tem uma lágrima no canto como quem não quer nada você continua falando e dirigindo e é claro que nem sabe desses átomos de água com íons flutuando que se acumulam do seu lado porque isso nem faz sentido e se você visse nunca conseguiria entender que as lágrimas são a minha comunicação secreta pra quase tudo que me faz viver mas eu só queria que você fosse um pouco romântico, porra.

Todos te rodeiam para saber teu nome. Você foge, porque não conhece todas aquelas pessoas. Elas te cercam, te cobram, querem saber da lista, cadê a lista, cadê teu nome? Você não se lembra quem é  e só consegue pronunciar um outro que não o teu.

As listas vão passando, você segue caminhando na rua, arfando muito, a respiração totalmente-não-é-suficiente, queria esquecer todos os que estão em volta e agora berram, todos esperam pela coroação do vencedor, falta ainda muitas horas mas alguém insiste em dizer que são só cinco minutos, cinco minutos, cinco minutos na vida.

Puxam tua barriga pela carne, arrancam o músculo, endireitam as entranhas para organizá-las numa nova lista, cada costela é um nome, e não sabes se alguém vai berrar que um deles é o teu, mas nem sabes mais se te chamas Priscila ou mesmo Rafael.

Acreditaste muito tempo na sobriedade, e agora que todos estes temas flutuam em volta das ondas da tua cama, e agora que tantas vozes pronunciam coisas indefinidas no ritmo do seu REM já não podes ter certeza se é possível simplesmente controlar os batimentos cardíacos e essa falta de ar que pressiona os pulmões. Há mais alguém por perto dizendo que o pódium já já será preenchido, e muitos nomes são possíveis, 150 para ser preciso, mas ninguém me ajuda a lembrar se o meu é um desses e eu ainda não pude olhar essa lista de que todos falam em volta das ondas do sono da minha cama.

To andando há tanto tempo, tá um desconforto danado. Tô suja. Fedendo. E por que que ninguém olha pra mim? Sou invisível pressa gente? Essa trouxa no meu ombro não pesava tanto assim. Eu não me lembro.

Que moça bonitinha. Quer ver que vai desviar o olhar? Ela tem medo de mim. Só porque eu tô suja. Desde quando sujeira é ameaça pra algum bicho? Que gracinha, ela desviou o olhar, mas olhou baixo com um sorriso meigo, pensando, dizia assim “Eu não sei se você é uma ameaça, mas quero que você seja um ser humano.”

Bonitinha. Ela cheira bem. As roupas dela estão limpas. As minhas não. As roupas dela têm cores, porque estão limpas. É por isso que ela pode ser feliz. A sujeira não me deixa ter cores, não dá pra ser feliz desse jeito, escura assim não.

-Moça, você tem um sabonete, um sabonete aí… aí com você?

Ela tá achando estranho o jeito que eu falo. Acho que ela tem dó. Se acha tão boa só porque parou pra ouvir o que eu tinha a dizer. Se acha boazinha porque tá dando atenção pra uma mendiga suja, mas eu seeeei, eu sei que ela não deixa de pensar que isso pode ser um golpe, que a qualquer momento posso atacá-la, que essa história de sabonete pode ser só uma distração pra roubar a mochila que ela carrega com tantas coisinhas que eu queria ter. O sabonete pode estar lá dentro.

-Não, eu não tenho não, moça.

-Um creme… um perfume…?

A mocinha abre a mochila com suas unhas que também têm cores – é um vermelho bonito que eu não posso nem alcançar – coloca um pouco na palma da minha mão esquerda, o creme é branco e ela diz que é pras mãos. Creme é creme, passo onde eu quiser. Enfio o nariz no creme pra sentir o cheiro da moça limpa, é bom, passo um pouco no rosto, ela disse que é pras mãos, mas meu rosto precisa, quero me limpar… Coloca um pouco mais do creme branco nas minhas mãos ávidas, como ela é tola, não sabe que pra me limpar precisa muito mais do que só esse tantinho?

Ela deve ser inteligente, ela estuda. Eu queria carregar essa pasta e mostrar pra todo mundo que eu desenho, que eu nasci rica, que eu tomo banho todos os dias.

A menina, coitada, acha que me ajudou.

Não sabe que eu precisava do tubo inteiro.

A barriga está doendo. Deve ser fome. Bobagem, não é. A barriga dói, deve ser enjôo. Ou gastrite. Ou paixão.

Deixa de comer porque fica confusa com a ordem dos fatos, a ordem dos dias, faz já uma semana que não almoça? E tem horas que se surpreende tremendo diante de algum pensamento, um sentimento que percorre o corpo inteiro e fica. Enjoada. Deve ser a cólica. Cólica faz isso com a gente, não é? Paixão também.

Segue tentando controlar o corpo, respira, respira, respira, yoga, canta, anda, e andando pensa, e pensando não percebe a malícia dos atalhos no cérebro, levam rapidamente, novamente, à paixão…

A catarse do filme ativou alguma reação em cadeia emocional, a história provocou um choro irreprimível; chora pelo mundo, chora também porque todas essas reações biológicas cansam, cansam demais.

É adrenalina, o professor que falou. O coração bate mais rápido, é verdade, sistema simpático/parassimpático, faz sentido, acetilcolina. Amor?

A gente costumava sentar na cozinha, na copa com tanto vidro, tanto sol, tanto céu, e era tanta música, era muita coisa, era muitas vozes, e era bom.

Tem foto de nós todos pequenos, a gente era tão bonitinho. Meu olho sempre grande, sempre aberto.

Um, tão esperto, tão terrível; outro tão sorrateiro, ela tão carinhosa, se pendurava em mim.

No corredor tem criança pendurada que nem o homem-aranha. Na garagem, dominam a gata que vai se chamar Cléo.

Estão construindo o atelier da mamãe, tem cheiro de madeira serrada. Um dos cheiros que mais gosto na vida. No rádio tocando “Beija-flor, que trouxe meu amor, voou e foi embora..” enquanto a gente se pendura nos andaimes. Eu lembro mesmo.

Tem noites de céu limpo que a energia falta, andamos pela rua, ar fresco e frio, alegria do comum.

Ir deitar na cama dos nossos pais de manhã, a cama, tão confortável, o sol, entrando bem pela janela, o quarto: era tão claro. A casa iluminada. O triângulo de vidro. Sons de limpeza nos vizinhos, barulhos confortáveis.

Meu aniversário de três anos, o vídeo com o papai tentando me fazer falar quantos anos estava fazendo, esmagando os meus dedinhos de um jeito tão engraçado. Eu chorei no parabéns porque o fósforo queimou meu dedo.

A gente crescendo.

E às vezes é tão difícil.

Você tocando “Eu sei que vou te amar”, e como eu chorei por não poder cantar essa música na apresentação da escola. Queria mostrar pra você.

Eu chorando porque também queria uma casa na árvore, queria participar do clubinho.

Você me ensinando tanta coisa sem nem se dar conta, e de repente eu percebendo o quanto aprendi.

Nós quatro.

Dói crescer.

A menininha carregando  seu balão branco, não é de hélio. Ela o arrasta pelo chão, o balão segue dando pulinhos. Numa curva o balão – ‘páf’ – a garota chora.

Viajam de carro. Param, porque tem um pássaro bonito lá fora. O cenário é terra vermelha, plantações e plantações. Saem do carro dançando freneticamente a música que está alta. Lá fora só o vazio.
Dura 30 segundos.

A menina-moça com o celular na mão. Sua expressão vidrada, aflita, esperando.
Os olhos estão brilhando, quase a chorar.

Tem esse bebê. Quer conversar. Consigo discernir movimentos infinitamente sutis de olhos – pupila, íris, pálpebras. Sua mãozinha apertando forte meu dedo diz “Você me entendeu.”

No trem. A garota tem olhos enormes. O garoto está de frente para ela. Ela desce. O garoto segue ao seu lado.
Dão-se as mãos.

A mãe se arrumando para sair. O filho aprendeu a subir nos móveis e triunfa em subir na pia do banheiro, em frente ao espelho.
Agora eles estão se olhando. Tão fundo.

Dois homens, muito amigos. Aproveitam a companhia um do outro. Uma mulher passa, ela é bonita.
Agora ambos estão sorrindo.

A moça trabalha cortando rosas. Hoje ela está apaixonada.
Corta todas, menos uma.

No ônibus toca uma música sensual e todos estão tranquilos. É uma cena bizarra.
São seis da tarde.

Um rio, próximo à nascente, um passeio longe de tudo, três amigos sentam à margem – é de pedrinhas – contemplam o que há para contemplar: a água barrenta, as árvores quietas, o céu branco. O caminho de volta escorrega muito.
Sujam os pés.

Um instante de tempo suspenso, um segundo arrastado, e de repente seu olho fixou tanto no meu…

A vida é trivial.
Tem tanta poesia.

Tudo o que sinto de amor está adormecido e gira em torno de mim, completando movimentos de translação sem nunca me tocar.

Pareço uma represa se enchendo de água até romper a barragem, tanta energia, tanta violência e pra quê? Represando os sentimentos, os movimentos e os olhares, contendo o mundo pra mim, querendo estourar, e no entanto incapaz de me deixar levar, me deixar lavar, incapaz de perder o chão e ventar..

Eu só queria expulsar de mim toda essa energia envelhecida, toda essa energia que às vezes faz meu coração bater muito rápido, a respiração falta; ainda se fosse paixão vá lá, mas é só um estado constante de vibração acima do normal, que já foi causado pelo barulho dos caminhões lá embaixo, mas agora pode ser só o olhar do velhinho que acabou de passar e me arrepiou a coluna.

I have no idea of what I am talking about

E quanto a eu mesma me revelar no espelho? A minha imagem que me reflete e me surpreende, tantas e tantas vezes, e o meu olhar que me esconde de mim mesma, me encara em suspense, a expressão carregada da sobrancelha e o músculo tensionado, sempre intrigada, os mesmos olhos de criança do vídeo da festinha de 3 anos, os mesmos cílios, a mesma pupila que quer captar tudo, que não se contenta em não compreender. Que faço quando eu mesma sou alvo das minhas perguntas, quando minha própria imagem refletida no vidro do ônibus me causa estranhamento, quando meu próprio olhar com as sobrancelhas tão presentes me encanta e me conquista, Narciso se afogando.

Ainda assim, vento.. Brisa outonal, fria, cortando o rosto contra o sol quente.

Minha íris forma uma interrogação bonita que não dá pra responder.

O coração é uma cidade que se permeia e se confunde, me reencontro e me perdi de novo, já não sei quem fui.

A velha gorda está sentada na calçada. A velha gorda está, de fato, esparramada na calçada. Fica lá todos os dias e é soberana num espaço de 5×5, aquela imensidão se espalhando pelo cobertor, olhos fundos e escuros. Ela canta. Já ouvi.

É a missa de sétimo dia, a flauta infantil soa deprimente a um canto da igreja de bancos pesados e parede escura. A reza vai vazia de pessoas e de fé, o portão da igreja brutalmente aberto, não há respeito pela defunta. Há um fluxo constante de pessoas nas laterais, uma desorganização preguiçosa, um desleixo deliberado.

Arreganha o pano da camiseta para mostrar a pele. Tá solta mesmo.

“Cê acha que eu tô gorda?”

“Não, não tá não!”

“This is just loose skin!”

“É, eu sei, é só pele solta! Cê ta bem.”

Tem uma pomba obesa na minha frente.

A velha esparramada na calçada não sangra, não tem nenhum sinal de violência na pele, mas está morta. A ausência de vida se percebe pela pele amarelada, pela impressão grosseira da carne, cristalino fosco. Me ajuda que aquela mesma voz ainda soa nos meus ouvidos e eu não posso suportar essa beleza estúpida que insiste em aparecer nesses momentos tão triviais.

Estou me construindo e desabei.

Não me olhe assim, não me interrompa dessa maneira, queixo na mão, boca transfigurada num sorriso assustador, não vai me ler que eu não deixo. Essa cara enorme vem zombar do meu assombro, esse vazio vem questionar minhas verdades.

Às vezes me arrepio com a vida.

Meu mundo contraído até só sobrar esse quartinho com a cama e a grávida. Todas as partes do corpo se comportando mal, inclusive algum espaço de ar em volta dele. É como se eu possuísse nervos uns 10 cm pra fora da pele. É importante suportar.

Vejo agora que o medo passou.

Tá me incomodando um  pouco… a falta de ar.

Vem aqui, minha neta. Me deixe morrer. Não há espaço para amanhã nos meus pensamentos. Venha, fique comigo um pouco, eu tenho medo. A morte dá medo. Eu sei como parece irreal, como a morte pode ser tão improvável. Não é. Mas eu ainda não aprendi a morrer. A coragem que você tanto valoriza eu não tenho, ainda não. Não quero ser tomado de repente pela sensação de leveza, de confusão, de estar sozinho num mar amplo e escuro demais pra que se possa distinguir qualquer coisa. Não saberia o que fazer com a abertura repentina das minhas percepções, com a luta secreta que todos nós travamos contra o desconhecido, contra a cara gigantesca do universo.

Vem, minha neta, senta aqui do meu lado. Tenho medo. Engraçado admitir isso justo agora. Fui criado pra ser homem, macho que é macho não tem medo. E eu tô é me cagando inteiro. A morte iguala todos os seres. Todo mundo morre igual. O desespero é de todos. Quanta coragem a gente tem que ter pra morrer… Eu não quero ver. Sabe, a vida vai pesando. Foi pesando tanto que agora meu joelho nem me aguenta direito. Meus pecados, ah, meu pecados, netinha querida.

Se não for pedir muito, me ajude, nem que por cinco minutos, me ajude a enxergar a beleza antes da minha passagem. Minha alma me cercou, por favor, me ajude a enxergar as cores novamente, não quero partir sem exergar o Sol.

O compasso do corpo já está ralentando e sei que você veio se despedir. Me dá sua mão e me diz pra não ter medo, pra confiar e ter coragem, pra aceitar que eu não entendo nada, pra me entregar à imensidão. Engraçado você saber essas coisas, você é tão pequenininha… Me empresta o frescor dos seus vinte anos e sopra sua brisa em mim, coloca Ciro Monteiro pra tocar que minha hora tá chegando e eu quero lembrar o que é ser feliz.

Without o quê?

Sem sair do chão. Não dá pra explicar sem flutuar, sem se deixar levar pela sua leveza que insiste tanto em sempre existir. Ela que é leve até tentando explicar todos os motivos pelos quais as pessoas vão embora. Mais ainda, flutua explicando todos os motivos pelos quais elas ficam.

Se para alguns uma divisão justa de opostos seria natureza x urbano, para ela existe apenas o céu e o chão. Vive a transcendência a cada passo dado, a cada movimento de mão, em cada músculo usado para levantar da cadeira. Vive em eterna dança porque sua vida é feita de melodias.

Segue com as nuvens e entende a lógica dos ventos – eles não têm lógica.

Vamos, minha amiga, podemos correr na chuva, vamos dançar Beatles a noite inteira, vem falar do tempo, nem precisa explicar um sorriso teu, mostra as suas cores. Entendo a sua voz. Se quiser chorar porque o céu está branco, eu não vou te censurar. Mas não deixa que tudo pese, não deixe o peso diminuir seus passos, não deixe o enjôo te curvar ao chão.

Pode se entristecer porque o celular toca e é só pra ouvir palavras triviais, se a faxineira vem ou não.

Mas não pense que não há mais amor na sua alma. Não deixa que o chão te cegue (como a areia…), não se convença de que o amor que desiste é fraco, que sensatez é se proteger do vento, que tirar da sua vida o peso de uma infelicidade obstinada põe em dúvida o que bateu no peito.

Não. Olha pra cima. Ainda enxerga o céu? Ainda vê o por-do-sol? O laranja não se parece em nada com o olho meio apagado, velho conhecido… Toda essa profusão de luz só se pode parecer com a sua alma, menina, que consegue reunir tantas cores juntas.

Olha em volta e vê quantos olhos se cruzam. O tempo todo. O amor não morre.

Vou continuar vendo a cor dos seus tênis novos, falando que você tem que comer, inventando mais piadinhas pro nosso repertório de cumplicidades, pegando livros e pijamas emprestados, e mais que tudo, vou te proteger do cinismo e do desencanto, da malícia medonha que não acredita em pureza. Você é o que há de mais puro. Você é feita de amor.

Endless Song Of Happiness

Há tempo para fazer o que quiser. Luxo. Ninguém tem. Há tempo para estacar no meio do viaduto, pessoas passando com pressa, observar o sol que se põe e tá tão bonito. Há tempo para notar que tem duas árvores, uma rosa e uma roxa, lado a lado, em frente ao hospital e ninguém reparou como a luz do sol incide diretamente nas flores. Há tempo para entrar no restaurante caprichosamente decorado, nem tão caro assim, sirva-se você mesmo, mas é tão bem cuidado; há tempo para gastar observando, antes de comer, se a postura está certa, se estou relaxada, se meus ombros estão leves, se minhas mãos estão limpas. E também para saborear lentamente cada um dos alimentos que escolhi para entrar no meu corpo, até mesmo deixar a comida esfriar, porque cada mastigada é tão lenta, tão lenta, tão lenta.

Há espaço para mais um livro na gaveta, há espaço nas mãos para mais carinho, tem lugar pra mais gordurinhas no corpo, sobra lugar pra ligações, mensagens, e-mails, conversas na cozinha.

E tem também lugar para mais textos, mais pensamentos, há muito tempo pra pensar no amor que pode surgir agora, ou daqui a pouco, ou mais tarde. Há calma para esperar a tarde acabar, existe vontade de criar, de desenhar, de fazer um pão com minhas próprias mãos.

Há um abismo de emoções não exploradas, de sensações esquecidas, de lembranças mal contadas, de memórias já perdidas. Há ainda a necessidade da música, a obsessão pelas melodias, há o êxtase da poesia, há o prazer incontestável do toque, existe o fascínio dos olhos que cintilam (esses, tão poucos), é um fato que o desejo nos cerca e nos rende, sabemos que existe a alma que inflama e abençoa.

Há tempo. Tem alma, tem coração, corpo, tem tudo. Tem o impensável, o incalculável, o insondável. Existe o infinito, a amplitude tão extrema, as possibilidades que não acabam, há a confusão totalmente absoluta, há a comoção maravilhosa com o que não dá para entender, a emoção de dizer que “às vezes é tão triste” com o espírito inteiro fazendo coro, a alegria de se saber irremediavelmente ignorante e o amor que permeia tudo.

Há o medo. Há o medo.

O desafio aceito, o sim à vida, o inferno que surge de dentro, a coragem! Tão grande deve ser a coragem. Não pode haver medo. Não tenha medo. O medo é o inferno.

É uma página em branco, é todas as possibilidades, acorda menina, veja tudo o que é! É tão grande, é tão simples, é mágico. Acorda que o teu presente é cristalino e puro, teu presente é a inocência que nunca perdeu, é a roda de cores, é a sensação de ouvir a música querida mais de uma vez. Acorda e dança que todo mundo te espera, todos esperam a visão de sua leveza, o vento da saia, a brisa de sua voz.

Acorda feliz que o caminho é bom e as folhas em branco já se colorem do seu sorriso.