Eu vi seu caderno e achei que a sua cabeça só podia ser amiga da minha
Ia ficar feliz se você me rendesse uma canção
Eu vi seu corpo atento, coluna perfeita e os pés no chão

 

Faz alguns minutos que eu dei um sorriso incrível e eu acho que sem perceber eu tava era sorrindo pra você.

 

Será que a gente escapa, mas só por um triz?
Será que só junto a gente fica feliz?
Será que a corda segura esse peso?
Será que é babaca que eu possa ter medo?
Será que é o teu sorriso que me traz o sossego?
Será que você me olha quando eu não to vendo?
Será que é mais forte o que bate no peito?
Será que é bobagem achar que tem freio?

Será que passa?
Será que tem graça?
Foi a alma que despertou?

Será que é vento?
será que é silêncio?
É amor que seu olho brilhou?

Os meus pés são os seus. E toda vez que olho meu dedão me lembro também que meu olho é o seu, que minha calma vem de você, que minha boca só pode dizer tuas palavras. Meus pés que também possuis repetem os mesmo passos pelo concreto de todos os dias, e é difícil me achar dentro do que metade é teu.

Meu cabelo ondula seguindo a sua mente tortuosa, minhas mãos sempre seguraram o lápis com a mesma busca pela linha, minha urgência por aventura hesitando em seguir a coragem que já estava em ti. Procuro por você em mim, e é difícil te encontrar no meio do que metade é ele.

Esse corpo que é todo marcado pelo que já foi. Esse nariz que veio de algum lugar da Espanha, essas costas que provavelmente viajaram pelas águas do Atlântico, esses seios que já repousaram nos braços carinhosas das Minas Gerais. Meus olhos que viram o mundo desfilar pelas retinas de um passado contínuo, passado que carrego nas mãos ainda pouco queimadas pelo Sol. E meu coração inteiro ainda vive na casa de portas-jamais-trancadas, nas janelas sempre escancaras, na sala tão iluminada. Meu coração ainda canta a canção de um lar que se abre em varandas, minha voz ainda solfeja a melodia de um amor que se insinua pelo sangue.

A pele atravessa o frio do outono uma vigésima segunda vez, me lembra de achar nos pedaços que trago comigo aquilo que é um.
Olho no espelho minha pupila contraindo e relaxando e busco na profundidade da escuridão um canto de mim que não se despedaça.
Reencontro da alma.

A poesia vem de todo canto, de todo dia, de todo corpo.
Há ritmo em sua dança, há vento em suas rimas.
Às vezes fere e, no entanto, alivia.

A alma espera todo o tempo, toda esquina, todo aperto.
Há vontade em seu olhar, há carícia em sua fala.
Às vezes se encanta e, no entanto, cala.

A música surge no sentimento, vem despida, desfila no peito
Existe dor na sua voz, é a vida em seu delírio
Não há tédio, não há medo, é um suspiro

Das entranhas da arte vejo assim uma pintura se formar:
arquitetura de loucos, edifícios de cores
uma cidade de formas no ar

E teu rosto que se insinua de dentro do papel
em música, em alma, em poesia
atravessa o inverno do dia
e reflete as luzes do céu

E eu escrevo e escrevo e escrevo e não consigo colocar pra fora toda essa coisa que você sempre deixa em mim, essa impressão de sentimento forte que sempre começa a me apertar sempre chega um momento em que eu transbordo e vez ou outra tem uma lágrima no canto como quem não quer nada você continua falando e dirigindo e é claro que nem sabe desses átomos de água com íons flutuando que se acumulam do seu lado porque isso nem faz sentido e se você visse nunca conseguiria entender que as lágrimas são a minha comunicação secreta pra quase tudo que me faz viver e querer viver mas eu só queria que você fosse um pouco romântico, porra.

As notas soam em cadência continuada, enfileiradas. Súbito, uma nota salta: é uma única nota, alguns segundos de beleza que te aguçam os sentidos, grudam na alma e a fazem finalmente compreender todas as notas já passadas, toda a vida ignorada.

Teu riso também desfilou infinitas notas que ignorei. No entanto, soou: uma nota. um segundo.

 

E agora te vejo pela primeira vez.

Todos te rodeiam para saber teu nome. Você foge, porque não conhece todas aquelas pessoas. Elas te cercam, te cobram, querem saber da lista, cadê a lista, cadê teu nome? Você não se lembra quem é  e só consegue pronunciar um outro que não o teu.

As listas vão passando, você segue caminhando na rua, arfando muito, a respiração totalmente-não-é-suficiente, queria esquecer todos os que estão em volta e agora berram, todos esperam pela coroação do vencedor, falta ainda muitas horas mas alguém insiste em dizer que são só cinco minutos, cinco minutos, cinco minutos na vida.

Puxam tua barriga pela carne, arrancam o músculo, endireitam as entranhas para organizá-las numa nova lista, cada costela é um nome, e não sabes se alguém vai berrar que um deles é o teu, mas nem sabes mais se te chamas Priscila ou mesmo Rafael.

Acreditaste muito tempo na sobriedade, e agora que todos estes temas flutuam em volta das ondas da tua cama, e agora que tantas vozes pronunciam coisas indefinidas no ritmo do seu REM já não podes ter certeza se é possível simplesmente controlar os batimentos cardíacos e essa falta de ar que pressiona os pulmões. Há mais alguém por perto dizendo que o pódium já já será preenchido, e muitos nomes são possíveis, 150 para ser preciso, mas ninguém me ajuda a lembrar se o meu é um desses e eu ainda não pude olhar essa lista de que todos falam em volta das ondas do sono da minha cama.

To andando há tanto tempo, tá um desconforto danado. Tô suja. Fedendo. E por que que ninguém olha pra mim? Sou invisível pressa gente? Essa trouxa no meu ombro não pesava tanto assim. Eu não me lembro.

Que moça bonitinha. Quer ver que vai desviar o olhar? Ela tem medo de mim. Só porque eu tô suja. Desde quando sujeira é ameaça pra algum bicho? Que gracinha, ela desviou o olhar, mas olhou baixo com um sorriso meigo, pensando, dizia assim “Eu não sei se você é uma ameaça, mas quero que você seja um ser humano.”

Bonitinha. Ela cheira bem. As roupas dela estão limpas. As minhas não. As roupas dela têm cores, porque estão limpas. É por isso que ela pode ser feliz. A sujeira não me deixa ter cores, não dá pra ser feliz desse jeito, escura assim não.

-Moça, você tem um sabonete, um sabonete aí… aí com você?

Ela tá achando estranho o jeito que eu falo. Acho que ela tem dó. Se acha tão boa só porque parou pra ouvir o que eu tinha a dizer. Se acha boazinha porque tá dando atenção pra uma mendiga suja, mas eu seeeei, eu sei que ela não deixa de pensar que isso pode ser um golpe, que a qualquer momento posso atacá-la, que essa história de sabonete pode ser só uma distração pra roubar a mochila que ela carrega com tantas coisinhas que eu queria ter. O sabonete pode estar lá dentro.

-Não, eu não tenho não, moça.

-Um creme… um perfume…?

A mocinha abre a mochila com suas unhas que também têm cores – é um vermelho bonito que eu não posso nem alcançar – coloca um pouco na palma da minha mão esquerda, o creme é branco e ela diz que é pras mãos. Creme é creme, passo onde eu quiser. Enfio o nariz no creme pra sentir o cheiro da moça limpa, é bom, passo um pouco no rosto, ela disse que é pras mãos, mas meu rosto precisa, quero me limpar… Coloca um pouco mais do creme branco nas minhas mãos ávidas, como ela é tola, não sabe que pra me limpar precisa muito mais do que só esse tantinho?

Ela deve ser inteligente, ela estuda. Eu queria carregar essa pasta e mostrar pra todo mundo que eu desenho, que eu nasci rica, que eu tomo banho todos os dias.

A menina, coitada, acha que me ajudou.

Não sabe que eu precisava do tubo inteiro.

Eu não queria cair nesse clichê tão redundantemente óbvio de ficar olhando o celular esperando a luz acender, o toque soar.

Eu não deveria. Já passamos essa fase dos romances, o mistério, os batimentos cardíacos terríveis, sensação de enjôo. E porque então sinto o mesmo, como se se perpetuasse aquela semana, aquela primeira semana incerta?

E você não liga. Deveria. Hoje deveria, eu juro. Eu queria escrever um texto tão bonito e te tocar como já te toquei, e ele não sai. Estou falando desse jeito banal, porque é banal o que eu preciso, é só uma ligação, é só sua voz, é só você. Mas eu não queria escrever aqueles textos bonitos que te fizeram me admirar de uma maneira tão mental que às vezes só sinto teu amor passando na trave.

Porque você não acredita em alma, não acredita na minha alma, e eu não posso entrar em você, assim, não, dá.

Falta. Sinto muita falta de você. Você nem tem idéia. Você não sente porque teu amor é real demais, mental demais e você sabe o que você espera de nós, e você sabe o que me dizer, na hora em que quer me dizer, e eu não.

Não se ofenda se ler isso, é que eu sinto muita falta e queria que você soubesse o que é um sentimento que não tem controle, não tem porquê, não tem calma, eu queria que você soubesse a sensação de ver um amor indo embora pra entrar no lugar um vazio de razão.

Eu queria que vc sentisse a sua alma, não vê que não importa se ela existe ou não? Alma é só uma maneira de sintetizar nossos sentimentos mais profundos.

O meu é tanto.

A barriga está doendo. Deve ser fome. Bobagem, não é. A barriga dói, deve ser enjôo. Ou gastrite. Ou paixão.

Deixa de comer porque fica confusa com a ordem dos fatos, a ordem dos dias, faz já uma semana que não almoça? E tem horas que se surpreende tremendo diante de algum pensamento, um sentimento que percorre o corpo inteiro e fica. Enjoada. Deve ser a cólica. Cólica faz isso com a gente, não é? Paixão também.

Segue tentando controlar o corpo, respira, respira, respira, yoga, canta, anda, e andando pensa, e pensando não percebe a malícia dos atalhos no cérebro, levam rapidamente, novamente, à paixão…

A catarse do filme ativou alguma reação em cadeia emocional, a história provocou um choro irreprimível; chora pelo mundo, chora também porque todas essas reações biológicas cansam, cansam demais.

É adrenalina, o professor que falou. O coração bate mais rápido, é verdade, sistema simpático/parassimpático, faz sentido, acetilcolina. Amor?

 

A gente costumava sentar na cozinha, na copa com tanto vidro, tanto sol, tanto céu, e era tanta música, era muita coisa, era muitas vozes, e era bom.

Tem foto de nós todos pequenos, a gente era tão bonitinho. Meu olho sempre grande, sempre aberto.

Um, tão esperto, tão terrível; outro tão sorrateiro, ela tão carinhosa, se pendurava em mim.

No corredor tem criança pendurada que nem o homem-aranha. Na garagem, dominam a gata que vai se chamar Cléo.

Estão construindo o atelier da mamãe, tem cheiro de madeira serrada. Um dos cheiros que mais gosto na vida. No rádio tocando “Beija-flor, que trouxe meu amor, voou e foi embora..” enquanto a gente se pendura nos andaimes. Eu lembro mesmo.

Tem noites de céu limpo que a energia falta, andamos pela rua, ar fresco e frio, alegria do comum.

Ir deitar na cama dos nossos pais de manhã, a cama, tão confortável, o sol, entrando bem pela janela, o quarto: era tão claro. A casa iluminada. O triângulo de vidro. Sons de limpeza nos vizinhos, barulhos confortáveis.

Meu aniversário de três anos, o vídeo com o papai tentando me fazer falar quantos anos estava fazendo, esmagando os meus dedinhos de um jeito tão engraçado. Eu chorei no parabéns porque o fósforo queimou meu dedo.

A gente crescendo.

E às vezes é tão difícil.

Você tocando “Eu sei que vou te amar”, e como eu chorei por não poder cantar essa música na apresentação da escola. Queria mostrar pra você.

Eu chorando porque também queria uma casa na árvore, queria participar do clubinho.

Você me ensinando tanta coisa sem nem se dar conta, e de repente eu percebendo o quanto aprendi. Como foi fácil aprender a tocar violão só por você existir.

Nós quatro.

Dói crescer.

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