A gente costumava sentar na cozinha, na copa com tanto vidro, tanto sol, tanto céu, e era tanta música, era muita coisa, era muitas vozes, e era bom.
Tem foto de nós todos pequenos, a gente era tão bonitinho. Meu olho sempre grande, sempre aberto.
Um, tão esperto, tão terrível; outro tão sorrateiro, ela tão carinhosa, se pendurava em mim.
No corredor tem criança pendurada que nem o homem-aranha. Na garagem, dominam a gata que vai se chamar Cléo.
Estão construindo o atelier da mamãe, tem cheiro de madeira serrada. Um dos cheiros que mais gosto na vida. No rádio tocando “Beija-flor, que trouxe meu amor, voou e foi embora..” enquanto a gente se pendura nos andaimes. Eu lembro mesmo.
Tem noites de céu limpo que a energia falta, andamos pela rua, ar fresco e frio, alegria do comum.
Ir deitar na cama dos nossos pais de manhã, a cama, tão confortável, o sol, entrando bem pela janela, o quarto: era tão claro. A casa iluminada. O triângulo de vidro. Sons de limpeza nos vizinhos, barulhos confortáveis.
Meu aniversário de três anos, o vídeo com o papai tentando me fazer falar quantos anos estava fazendo, esmagando os meus dedinhos de um jeito tão engraçado. Eu chorei no parabéns porque o fósforo queimou meu dedo.
A gente crescendo.
E às vezes é tão difícil.
Você tocando “Eu sei que vou te amar”, e como eu chorei por não poder cantar essa música na apresentação da escola. Queria mostrar pra você.
Eu chorando porque também queria uma casa na árvore, queria participar do clubinho.
Você me ensinando tanta coisa sem nem se dar conta, e de repente eu percebendo o quanto aprendi. Como foi fácil aprender a tocar violão só por você existir.
Nós quatro.
Dói crescer.